segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Táxis em faixas de ônibus e a Operação Dá Licença para as Eleições (EDITORIAL)


faixas liberadas para táxis
Dilma Rousseff, que tenta a eleição, se encontra com taxistas em São Paulo e ganha miniatura em evento no início de setembro. Seis dias depois, prefeito Fernando Haddad e secretário Jilmar Tatto deixam de defender veementemente a exclusividade dos ônibus nas faixas e liberam os espaçospara os táxis, inclusive permitindo embarque e desembarque. Ivan Pacheco/VEJA.com

Opinião: Operação Dá Licença para as Eleições
Prefeitura de São Paulo estava indo bem ao priorizar o transporte de massa, mas uma visita aconteceu e tudo mudou ….
No reino encantado da cidade das faixas tudo parecia ir bem.
As carruagens que levavam dezenas e até centenas de súditos começavam a andar mais rapidamente. Não chegavam a ser carruagens de fogo, mas os moradores do reino sentiam a diferença.
O administrador do reino das faixas e seu fiel escudeiro que dizia tratar dos transportes com toda presteza, dedicação e tato apurado alardeavam pelo reino que os ganhos para as vidas dos súditos tinha sido grandes.
Mas este reino encantado e “enfaixado” ficava num império maior. E a pessoa que administra o império queria continuar no poder. Queria também que outros nomes da realeza estrelada também ganhassem uma fatia desse “bolo” de riqueza.
E foi assim, numa imagem constrangedora, que o administrador do reino enfaixado e seu escudeiro anunciaram que as faixas não eram apenas mais para as grandes carruagens, mas também para as pequenas que levavam menos gente. Os donos e usuários habituais dessas carruagens pequenas mostraram que têm muita influência no reino e se encontraram com a administradora do império e tudo mudou….
O anúncio de liberação dos táxis nas faixas exclusivas de ônibus feito nesta sexta-feira pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e o Secretário Municipal de Transportes, Jilmar Tatto, que, após ferrenhas defesas da exclusividade em mais de 450 quilômetros nestes espaços exclusivos pela cidade, foi, no mínimo, estranho e constrangedor.
Apesar de ambos alegarem que a liberação foi feita após estudos em faixas como da Avenida 23 de maio que, em tese, comprovaram que a presença dos táxis não influencia na velocidade dos ônibus, sinceramente, o discurso não colou!
Os táxis agora vão poder não só trafegar com passageiros como embarcá-los e desembarcá-los nas faixas que deixam de ser exclusivas para o transporte coletivo.
Mas Haddad e Tatto, como assim não causam impacto?
Se vocês mesmos divulgaram a exaustão que nos corredores de ônibus à esquerda, onde os táxis trafegam fora do horário de pico com passageiro, a presença destes veículos diminuía a velocidade dos coletivos em 25% em média, sem fazer embarque e desembarques, por que então nas faixas eles não trariam impactos, sendo que eles vão inclusive poder fazer as paradas?
Algum dado foi divulgado para a população de maneira mentirosa!
Se a alegação para permitir essa liberação é de que nas faixas os ônibus não fluem com a mesma velocidade que nos corredores, então está errado o dado da prefeitura que diz que enquanto em média nos corredores os ônibus desenvolviam 16,5 km/h, nas faixas ultrapassavam a 21,5km/h.
Ou então, todos os estudos que diziam que a velocidade dos ônibus com a exclusividade nas faixas aumentou de 25% a 370% dependendo do trecho são distorcidos.
O que ocorre, na verdade, é que essa decisão parece ter muito mais elementos eleitoreiros do que técnicos.
E para isso há algumas, diga-se, “coincidências”.
Primeiro porque a classe mais abastada que usa táxis com mais frequencia reclamou e muito da proibição dos veículos nas faixas e nos corredores à esquerda,nestes últimos que ainda vigora de segunda à sexta-feira, das 6h às 9h e das 16h às 20h. Antes que alguém venha estufar o peito e bradar “Mas não é só rico que usa táxi”, é óbvio,nem precisava perder tempo falando! Mas a grande maioria da população, 6 milhões de pessoas por dia, usa ônibus. Já os táxis transportam 500 mil passageiros por dia.
Para beneficiar a minoria, os ganhos da maioria serão certamente reduzidos.
Segundo que, desde a época da proibição da circulação nos corredores em março deste ano, a bancada dos taxistas na Câmara se mostrou fortíssima. Tanto é que até mesmo o veemente e voraz promotor Maurício Ribeiro Lopes, do Ministério Público Estadual, que sugeria a proibição dos táxis nos corredores durante todo o dia, teve de ficar manso, recuar e aceitar este “meio termo”.
Outra “curiosidade” é que Haddad e Tatto, do PT, fizeram este anúncio, quase de surpresa, no dia 12 de setembro. No dia 06 de setembro, a presidente, Dilma Rousseff, candidata à reeleição, obviamente pelo PT, fez uma visita a cooperativas e lideranças de taxistas.
Quem recebeu a chefe do executivo, que tenta continuar ser chefe, foi o presidente do sindicato dos taxistas de São Paulo, Natalício Bezerra, homem de influência sobre uma categoria de 32 mil profissionais. A demanda foi discutida com Dilma.
Além disso, o PT tem um sonho histórico. Tirar do inimigo PSDB o controle do Governo do Estado de São Paulo.
O atual governador Geraldo Alckmin, do PSDB, que também busca reeleição, está em primeiro lugar nas pesquisas, seguido pelo representante da Fiesp – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Paulo Skaf, do PMDB.
Lá embaixo está Alexandre Padilha, do PT.
As eleições se aproximam e a reação do PT é fraca. O partido quer fazer com Padilha na disputa estadual de 2014 o que fez com Haddad na disputa municipal de 2012, que também estava no subsolo das pesquisas e acabou virando prefeito.
Este editorial, portanto livre para expressão de opinião que não precisa ter o acordo de ninguém, mas deve ser respeitado, não é contra taxistas, essa categoria indispensável na mobilidade urbana, e tão pouco contra os usuários de táxis.. Mas a verdade é que parece muito estranha a mudança de posição de Haddad e Tatto depois das defesas veementes da exclusividade dos ônibus nas faixas em período eleitoral.
A Operação Dá Licença para o Ônibus, como batizou os marketeiros da prefeitura, virou Operação Dá Licença para as eleições.


Fonte:  por: Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes

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