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sexta-feira, 31 de maio de 2013
Governo Federal impõe sigilo sobre gastos de Dilma no exterior
Itamaraty orienta classificar todos os
documentos relativos às viagens como 'reservados' enquanto presidente
estiver no cargo; chancelaria afirma que medida está dentro da lei
O governo colocou sob sigilo todas as informações
relativas às viagens que a presidente Dilma Rousseff ou seu vice, Michel
Temer, já fizeram ou vierem a fazer ao exterior. Os dados só poderão
ser divulgados depois que ela deixar o Palácio do Planalto, em 31 de
dezembro de 2014. Ou, se reeleita, de 2018. Roberto Stuckert Filho/PR
Presidenta Dilma Rousseff durante sua chegada a Adis Abeba, capital da Etiópia, na África
A decisão ocorre num momento em que o governo
está sendo questionado sobre o tamanho das comitivas presidenciais – e
dos gastos – no exterior. Além disso, ela impedirá que esses dados
venham à luz durante a campanha eleitoral de 2014.
Extratos de uma comunicação classificada do Itamaraty, a que o iG
teve acesso, determina a reclassificação de todos os expedientes e
documentos relacionados às visitas ao exterior de Dilma ou do vice,
feitas desde que ela tomou posse, em 1º de janeiro de 2011. A regra se
aplica também às viagens que forem feitas "futuramente".
No mínimo, esses materiais deverão receber o carimbo de
“reservados”, categoria que prevê sigilo de cinco anos desde a sua
produção. Mas podem ser reclassificados como secretos, o que os deixará
15 anos na sombra, ou como ultrassecretos – 25 anos.
Leia também: Dilma viaja à África e Renan assume a Presidência Presidente destaca autonomia da África e América Latina em discurso na Etiópia
Quando Dilma deixar o poder, o sigilo poderá será
levantado, segundo o documento. A justificativa legal para classificar
os documentos será a da segurança. A Lei de Acesso à Informação
(12.527/2011), a LAI, permite colocar sob sigilo, até que o presidente
da República e o vice deixem os cargos, dados que possam pô-los em
risco. A proteção se aplica aos cônjuges e filhos de ambos. ‘Estrito cumprimento da lei’
O Itamaraty não confirmou o exato teor do documento.
Segundo a assessoria de imprensa do órgão, “as medidas de
reclassificação são feitas em estrito cumprimento à Lei de Acesso à
Informação".
Procurada na tarde desta quinta-feira (30), a chancelaria
não disponibilizou um porta-voz para explicar de onde partiu a ordem e
por que ela foi emitida no atual momento.
Dilma foi a presidente que sancionou LAI em 2011. Em 3 de
julho de 2012, ressaltou que o texto determina "que o acesso agora é a
regra e o sigilo passou a ser a exceção.”
Na prática, entretanto, a comunicação tornou regra que
qualquer informação sobre viagens da presidente ao exterior ficará de
fora do alcance da LAI até o fim da era Dilma. 'Totalmente desarrazoado'
A ordem de reclassificar os documentos foi distribuída a
funcionários do Itamaraty no Brasil e a toda a rede consular do País no
exterior nos últimos dias, segundo duas fontes da pasta ouvidas pela
reportagem. Outras duas fontes, da mesma pasta, confirmaram a existência
do documento e o seu teor, mas não o texto exato. Todas pediram
anonimato.
Uma das fontes afirma que definir de forma indiscriminada
o sigilo de informações sobre viagens presidenciais para frente e desde
o início do mandato é algo inédito nos anais do governo brasileiro.
Reconhecendo que, normalmente, algumas informações das viagens
presidenciais já são tratadas de forma confidencial, esta fonte ressalta
que dados corriqueiros não precisam ser tratados de forma secreta.
De acordo com essa fonte, em teste a determinação de sigilo se aplica a
qualquer informação relativa à viagem. Mas quando se fala em faturas,
está claro que há uma referência específica às despesas, avalia ela.
Impor o sigilo a dados de viagens passadas por motivo de segurança seria
totalmente desarrazoado, pois a divulgação ocorreria quando a pessoa já
voltou para o Brasil e está sã e salva.
Para essa fonte, o sigilo se aplicará também aos gastos
de todos os membros das comitivas, e não só da presidente. Em março, a
BBC revelou que Dilma gastou R$ 11,6 milhões em 35 viagens feitas entre
2011 e 2012. Desses, R$ 433 mil foram dispendidos em escalas feitas em
países nos quais a presidente não tinha nenhum compromisso oficial. Os
dados foram obtidos por meio da LAI.
No mesmo mês, o senador Álvaro Dias (PSDB-PR), fez um
requerimento via mesa do Senado para que o governo detalhasse os gastos
realizados durante a viagem de Dilma a Roma para a missa inaugural do
Papa Francisco. A visita custou ao menos R$ 324 mil. À reportagem, o
parlamantar disse ainda não ter recebido resposta.
O iG
solicitou no dia 28 de maio informações sobre os gastos da presidente à
Etiópia. A LAI prevê que a informação seja divulgada imediatamente, se
estiver disponível, ou num prazo máximo de 30 dias. Os dados não foram
repassados até a conclusão desta reportagem.
Fonte: iG São Paulo por: Vitor Sorano
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